segunda-feira, novembro 15, 2010

Fui às compras

Chego apressado e com uma película de suor que me cobre todo o corpo; é fina e fria como o gelo das madrugadas. Entro rapidamente no quarto, com três largos passos fico sentado no cadeirão junto à mesa dos papéis. Num movimento de mole desespero e de incerteza crónica, procuro o pacote minúsculo que trago no bolso mais pequeno das minhas calças. Aquele bolso feito para colocar os pacotes minúsculos que carregam o único e possível descanso terreno de quem usa aquelas calças.
Agarro-o com dois dedos e tiro-o do bolso. Coloco-o em cima da mesa e através do fino plástico azul consigo deslumbrar a cor castanha daquele pó essencial. Quase que sinto o seu fumo a passar pela minha boca e a prender-se nos meus pulmões.
Isso faz-me ficar ainda com mais pressa.

Estou preparado, tenho tudo o que preciso, nervosismo, folha de alumínio, vontade de fugir da minha vida, navalha, mãos suadas, isqueiro e cigarros. Começo pela folha de alumínio, é preciso cortar dois quadrados do tamanho de uma mão, faço isso como quem beija e acaricia uma mulher só para ter sexo, preliminares desnecessários. Depois de ter esses dois quadrados, dobro um em quatro partes para que fique mais pequeno e mais forte. Puxo de um cigarro e enrolo essa parte ao cigarro. O objectivo é dar-lhe uma forma redonda para que, quando tirar o cigarro, consiga fazer desse quadrado um tubo perfeito. Este não é. Ficou imperfeito como tudo o que faço e tudo o que sou, mas isso não importa. O que importa é que este ansioso preliminar terminou. Pego na navalha e com um corte prensado abro o pacote (que, neste momento, é o centro da minha vida).
Tenho o cuidado de não deixar cair nenhum pó.
Tudo é necessário.
Com cuidado e mãos trémulas coloco o pó no centro do quadrado da folha de alumínio e o tubo imperfeito na minha boca. Faço com que a folha não deixe cair nenhum pó. A mão direita procura o isqueiro e encontra-o. Acende-o e coloca-o debaixo da folha de alumínio. O pó, ao ser tocado pelo calor da chama, transforma-se em líquido. Transforma-se numa bolha fumegante de um negro liso e castanho cor de sangue. O primeiro fumo que me chega ao nariz dá-me vómitos (que eu controlo perfeitamente) e faz com aquele cheiro se cole a tudo. Inclino a folha de alumínio, normalmente chamada de prata, para que esta preciosa bolha possa escorregar e durar-me o maior tempo possível. Cheguei ao ponto onde queria chegar e de onde nunca queria partir. Dou lume e a bolha começa a correr, nesse momento começo a aspirar aquele fumo que tem um horrível sabor a sacrifício. Inspiro o suficiente para não ser demais ao ponto de me levar a vomitar e não ser de menos ao ponto de não sentir os primeiros efeitos. Foi pouco fumo, mas algo na parte de dentro da minha nuca tornou-se diferente. Uma paz egoísta começou a alojar-se aí, um estado diferente, uma estranheza mole e esponjosa. Num lento expirar deito fora tudo o que restava de fumo nos meus pulmões. A boca ficou com um gosto horrível que é preciso aguentar. Tornou-se seca e vazia, onde a língua bate rija contra os dentes fixos e implacáveis e contra o céu-da-boca negro e cinzento como eu o imagino. Continuo a fumar. Há quarta inclinação da prata eu sou outro. Surge em mim a calma que existe no fundo do oceano, torno-me uma pedra com olhos e boca. Sou uma árvore com pernas e pensamento. Sou uma montanha sentada num cadeirão.
A prata começa a ficar riscada com o correr da bolha, tal como as paredes brancas dos montes do Alentejo ficam riscadas pelo passear dos caracóis durante o Verão. Estou completo. Sinto o crânio cheio de uma pressão mansa, uma energia calma e poderosa. Começo a funcionar como Deus. Não existem problemas ou os que existem não passam de pormenores que precisam de ser enxotados com a mão. Continuo a fumar. Sinto-me muito bem, sinto-me doente. A bolha começa a diminuir, cada vez se torna mais pequena e cada vez aquela prata se parece mais com uma teia de aranha. Os rastos da bolha começam a fazer formas geométricas imperfeitas. Estou cinco vezes mais pesado que habitual. Os movimentos tornaram-se lentos e cansados. Apetece-me parar tudo e ficar de olhos fechados a sentir o meu respirar. A sentir este mole prazer que aparece em explosões, surdas e mudas, por todo o meu corpo, por todo o espaço de corpo que tenho. Faço uma pausa antes de acabar com a bolha. Sou feliz mesmo sabendo que só o sou por algumas horas. Recosto-me no cadeirão e relaxo todos os músculos, ossos e pensamentos do meu corpo. O tempo é contado em respirações. Uma vontade de vomitar nasce na ponta inferior do meu estômago, entretenho-me a vê-la crescer, a vê-la subir. É maravilhoso estar vivo. Acho que não vou conseguir acabar com a bolha, acho que me vai fazer vomitar. (Mesmo assim.) Vou arriscar. Num bafo cuidadoso, com o cuidado de quem enfia comida na boca de um acamado crónico. Respiro esse último fumo enquanto assisto ao ferver final da bolha e à sua transformação numa crosta seca e cinzenta anunciadora do fim dos sonhos. Largo tudo. Já não preciso de nada. Encontro uma posição confortável e quase que adormeço a observar as náuseas que, em vagas, me sobem meigamente à boca pelo estômago, como crianças que correm rua acima rua abaixo só para sentir o vento na cara. Sei que é uma questão de tempo até que uma me faça vomitar. Sei, também, que esse vomitar pode ser fatal. Mas isso não me interessa por agora. Estou de olhos fechados, quase que adormeço de prazer no cadeirão. Apenas me mexo para acalmar as comichões que me surgem na cabeça, no rosto, no nariz… Talvez o nariz seja o pior. É um gesto repetido, o de coçar o nariz.
As náuseas continuam.
Até que uma me obriga a mexer.
Faz-me endireitar o tronco, que repousava enrolado.
Tive que abrir os olhos.
Com essa náusea chegou também o medo.
Respiro devagar para a controlar. Tento ser o menos agressivo possível em tudo o que faço. Qualquer gesto pode trazer consequências inesperadas, pressinto-o. Sento-me meio curvado, meio como quem abraça alguém para fazer sentir bem e controlar-lhe a revolta. Fico assim durante alguns momentos. Agora, começo a sentir um mal-estar na forma duma pedra grande e redonda que me apareceu na base do estômago e que lentamente vai subindo. Sinto que não há nada a fazer. Não há maneira de a parar. Ela arrasta tudo consigo. Ela sobe. Até que chega à minha garganta. Num reflexo, o meu corpo entrega-se a um espasmo e sou projectado para a frente por um vómito doloroso, vazio e quente. Pouco há para vomitar a não ser esta vontade de vomitar (deixei de comer há dias porque me cansa muito mastigar e porque toda a comida se torna cinza na minha boca). Estou de joelhos, mãos no chão, boca aberta e garganta trancada por convulsões amargas e quentes. Quero vomitar, mas não o consigo fazer. Não há nada para vomitar, mas um impulso cego obriga-me a fazê-lo. A garganta trancou do esforço, o meu medo tornou-se pânico. Era isto que eu não queria, é isto que está a acontecer. Não consigo vomitar e agora também não consigo respirar. A garganta trancou. Consigo respirar em pequenos goles de ar. Quantidades quase imperceptíveis e quase insuficientes. Este esforço para respirar faz o som horrível de quem está a sufocar. Olho a morte nos olhos. Não sei se consigo mais um gole de ar, cada vez se torna mais difícil, cada vez a garganta está mais cerrada. Tenho os dedos cravados na alcatifa. Todo o meu corpo é tensão e garganta é um músculo preso num apertar absurdo. Está-me a fazer morrer. Estou a perder a força. Em vez de ar respiro um chiar forçado. Respiro um desespero final. Perco as forças. Caio para o lado. Com toda a força que me resta tento respirar. Mas não consigo. Um branco sem cor começa a tomar conta de mim, dos meus olhos, dos meus pensamentos… O desespero cede ao largar. As contracções internas do meu tronco marcam o tempo.
Foi aqui que nasci.

domingo, novembro 07, 2010

2012

‎"The 2012 Shift
The main lens through which I see the 2012 shift occurring illustrates a change that deviates from the macro structure of social conventions and group consciousness and gravitates towards individualism — abundance — and personal truth."

http://spiritualblog.com/2852/2012-consciousness-in-plain-english


quinta-feira, novembro 04, 2010

Eu, Eu, Eu, Eu, Eu.

Sou uma farsa que admite sê-la. Um actor que representa sem máscara. Um actor que durante a representação admite que não é quem representa ser. Sou ninguém. Faço-me pequeno para esconder a grandeza e faço-me grande para esconder a pequeneza. Sou vazio. Meia dúzia de palavras em equilíbrio. Não sei o quero, nem para onde vou. Sou. Sou sons. Vindos de dentro para fora e de fora para dentro, não sei qual das parte sou. A vida sabe-me a nada. Sabe-me a apertos de mão e a hálitos putrefactos. Sabe-me a desejos por realizar. Sou olhos, meus e teus. Sou olhares. Sou ver e não ver. Verbalizar é mentir-me. Sou um monte de mentiras que conto a mim mesmo.

Sei cumprir funções.
Vísceras, tripas.
Apetece-me bater em alguém.
Estão todos enganados comigo.
Não quero desiludir,
se essa ilusão é melhor que a realidade.

segunda-feira, outubro 25, 2010

Resta-nos a ironia


Recomendo outros vídeos relacionados com este que poderá encontrar nas sugestões à direita. (conforme visto no youtube)

sexta-feira, outubro 22, 2010

Albert Camus

"When a young man finds himself at the threshold of life, on the brink of any undertaking, he feels grave weariness and profound disgust at the pettiness and vanities that have soiled him even as he tried to deny them; an instictive aversion rises on him. His pride revolts at every day life, which grows even more humiliating. He doubts: ideias in general, social conventions, everything he has received. A grave matter, he also doubts his deepest feelings: Faith, Love. He becomes aware that he his nothing. There he is, alone, and at a loss. But he knows that he desires, therefore he can be something: he must at all cost define his potentialities."

quinta-feira, outubro 21, 2010

Eu Vivo no Estômago

É o estômago. Eu vivo no estômago. E neste momento ele está apertado, contraído. Tenho a sensação de querer vomitar, mas a razão para isso não é clara e por isso não vomito. Vomitar sem uma razão clara seria assumir o fim e eu ainda não quero que acabe, ainda estou agarrado a mim pelas pontas dos dedos. Mas o estômago aperta, e aperta cada vez mais ou cada vez o sinto com mais consciência.
Assim que fico só, ele aperta. Faz-me querer morrer. Faz-me querer parar esta dorzinha que se torna insuportável. Este cansaço de a sentir. Estou perdido. E não há mapa que me ajude. Perdido como sempre estive, mesmo quando estava esquecido disso. Não tenho nada. Uma mão cheia de nada, que me faz apertar o estômago, e o saber de que já nada cola. Tudo se desfaz. Não há uma coisa que me faça viver. Nada que me dê sentido por mais que umas horas. Estou condenado ao desamparo. Condenado a ser mais um entre os muitos. Mais uma sombra no meio dos vultos que deambulam por aí, sem norte nem sentido. Sem força de ser o quer que seja. Desacreditado de tudo. Um ser em convulsões de corpo preste a morrer. Um ser que me estrangula o estômago no desespero de se mostrar. Estou sem forças. Não tenho porque me mexer. (Pelo menos agora). As mulheres fazem-me querer mexer ao mesmo tempo que o estômago é estrangulado com mais força. Ao me mexer a ausência de sentido revela-se. Estou-me a mexer para quê? Porquê? Será que é isto que quero. Será que é isto que sinto. Não será melhor voltar a sentar ou a deitar? E deixar tudo como está, na calma do jorrar interior do meu sangue.Mas este estado também é passageiro. Daqui a pouco, uma qualquer vontade, nem que seja a de ficar de pé, toma conta de mim e faz-me mexer e faz-me doer. Pergunto-me sobre como posso suportar isto. A ideia de futuro faz-me pensar em suicídio. Não encontro resposta, a não ser este espernear que me faz escrever ou aquele momento de descanso onde me esqueço num qualquer entretem. Mas até esses entreténs estão a deixar de ter efeito, mesmo entretido sinto o estômago, sinto o seu apertar intolerante, que talvez me queira lembrar que estou vivo e que estar vivo é dor, é frustração, é desespero, é sofrimento, é desilusão. Acho que me quer testar. Quer-me provocar. Quer que eu o pare. Quer que o silencie. Este monte de ossos não faz nenhum sentido. Este corpo-dor não tem sentido. Dou por mim a fazer algo de espontâneo. Dou por mim com uma máquina no colo e a bater-lhe com a ponta dos dedos para que desenhos de dor apareçam numa luz branca e mágica. Dou por mim sem posição para estar. Sem saber como devo estar. Qual a forma de causar menos dano. Menos dor agora e menos dor no futuro.
Este corpo é absurdamente estranho com estas duas tarântulas que mexem às minhas ordens. Com estas dores que surgem e que me fazem sentir o sangue no seu vaivém doentio. Esta coluna de ossos que curva e se cansa de existir. E o sangue que bomba sem cessar. E eu sou isto. Este milagre doente que decai a cada respirar. Esta coisa que quer sem saber o que querer.
Acho que estou apaixonado.

sexta-feira, outubro 15, 2010

Melancolia

Sabe bem falar contigo. Às vezes escuto-me. A falar no quarto sozinho sem que a palavra se ouça por entre as paredes, mas nem de longe se compara à tua voz, mesmo que em silêncio.

Lembras-te daquele nosso banco de jardim? As tardes de outono depois da escola. Era como que se um pedaço de tempo caísse solto do seu calendário. Para nós. Só nosso e daquele sol que descia reflectindo nas pedras da calçada a sua harmoniosa luz. Suave. Brilhava por de entre as folhas caídas de outono e eu, bem, eu estava, mas não estava. Porque estava contigo, não precisava de estar eu. Eras tu, eu. Sorria cerrando levemente os olhos que em ti me faziam chegar, afundava nos teus. Perdia-me. Perdiamo-nos.

Levantava-se a noite com tanto ainda para falar. Discutíamos. Sem o auxílio do relógio que não era para ali chamado! Eu tinha a razão, mas tu não querias ver! Repara nos meus argumentos! Mas não, tu não cedias! Afinal de contas eras tu quem tinha a razão e eu quem não queria ver. Mas sabes bem que afinal havia uma vírgula que não tinhas tu considerado! Eu sabia! Nós sabíamos. Porque éramos um. Fazia-mos sentido, no meio do turbilhão caótico de ideias e argumentos pouco arrojados, nós fazíamos sentido.

Quero que saibas que se sentou hoje aqui comigo, no nosso banco de jardim, ele que se acha digno de atenção. Eu, por simpatia ou cansaço depois de um dia longo de escola, deixei que ele falasse e eu ouvia. Sempre muito presente sentindo o ferro frio do banco na minha nádega esquerda. Dificilmente cruzávamos um olhar tal não era a falta de irmandade. Sentia a brisa fria, cortante que o sol já não tinha forças para aquecer. Esperava que ele terminasse o seu discurso sem sal. E terminou.

Vejo-o partir saciado da sua necessidade de se centralizar no mundo. Quanto a mim, quero que saibas que aqui te espero, no nosso banco de jardim. Espero por te conhecer. Um dia.